Passar uma mensagem usando apenas as regras do português e de sua gramática é relativamente simples, e às vezes muito monótono. Existem estratégias usadas pelo autor ou falante que dão ao texto mais originalidade e expressividade, as chamadas figuras de linguagem. É quase impossível participarmos de uma conversa sem recorrer a uma ou outra dessas figuras, algumas já estão profundamente incorporadas à nossa língua, tanto que mal notamos que são figuras de linguagem. São artifícios bastante comum em obras literárias, musicais e poéticas, e o uso destes recursos pode transformar uma frase ordinária em algo original.

Classificação

As figuras de linguagem podem ser classificadas em quatro grandes grupos, e a divisão se dá em relação a aspectos fonológicos, semânticos ou sintáticos das palavras em que o recurso foi utilizado. Elas podem ser figuras de som, de palavra, de pensamento ou de construção.

Figuras de som

Conhecidas também como figuras de harmonia, estão intimamente relacionadas à fonologia. A sonoridade das palavras, sílabas ou fonemas são usadas de uma forma peculiar para criar um sentido expressivo único, seja construindo um ritmo na frase, imitando sons de animais ou máquinas, ou ainda relacionando palavras com sonoridade parecida. São figuras de som:

  • Aliteração – Repetição da mesma consoante ou de outra que tenha som parecido.
    Exemplo: “Três tigres tristes comeram três pratos de trigo”
  • Assonância – Repetição de uma mesma vogal, recurso bastante usado em versos.
    Exemplo: “Pólo sul, meu azul / Luz do sentimento nu” (Djavan – Linha do Equador)
  • Paronomásia – Repetição de sons semelhantes em diferentes palavras.
    Exemplo: “Berro pelo aterro, pelo desterro/Berro por seu berro, pelo seu erro” (Caetano Veloso – Qualquer Coisa)
  • Onomatopeia – Conjunto de sílabas ou letras que reproduzem um som natural ou produzido.
    Exemplos: CABUM! (Explosão) Tic Tac (Ponteiros de relógio)

Figuras de Palavra

Às vezes é possível usar uma palavra ou expressão com o significado de uma outra. Este empréstimo de significado torna-se possível devido a alguma semelhança existente entre os dois termos, que é reforçada pela figura de linguagem, produzindo uma sentença mais expressiva.

  • Comparação – Aproximação do significado de dois ou mais elementos com uso de termos comparativos: “como” , “assim como”, “tal que”, “que nem”, entre outros.
    Exemplo: Linda como uma flor.
  • Metáfora – Substituição de um termo por outro devido a uma semelhança subjetiva entre os dois.
    Exemplo: Mário é uma porta! Nunca vi tanta estupidez.
  • Metonímia – Substituição de um termo por outro devido a uma semelhança ou relação real entre os dois.
    Exemplo: Ele leu Ariano Suassuna todo! (A obra de Ariano Suassuna)
  • Sinédoque – Substituições de termos havendo uma ampliação ou diminuição do sentido relacionado com a quantidade.
    Exemplo: O baiano é preguiçoso (Os baianos/ As pessoas da Bahia)
  • Catacrese – Metáforas que já se tornaram habituais.
    Exemplos: Perna da mesa; Cabeça de alho.
  • Sinestesia – Combinação de sensações físicas (tato, audição, paladar, visão, olfato) na mesma expressão.
    Exemplo: Sua voz era áspera e azeda.
  • Antonomásia – Reconhecimento de uma pessoa por uma característica ou fato. Conhecido como apelido.
    Exemplo: O poeta dos escravos era um bom poeta. (Castro Alves)

Figuras de Pensamento

As figuras de pensamento também estão relacionadas à estrutura semântica da palavra, e são utilizadas para causar impacto ou contradição no receptor da mensagem. Caracterizam-se pela aproximação de termos opostos, repetição de uma ideia em diferentes palavras e a utilização estratégica de palavras para representar uma ideia contrária.

  • Antítese – Aproximação de palavras ou expressões com significados opostos.
    Exemplos: Adoro o verão, detesto o inverno.
  • Apóstrofe – Invocação de uma entidade ou pessoa, presente ou não, utilizando vocativo.
    Exemplo: Pai! Apareça para mim!
  • Paradoxo – Ou oximoro é a fusão de dois termos ou expressões excludentes relacionando-se ao mesmo termo.
    Exemplo: Escute o som do silêncio.
  • Eufemismo – Emprego de uma palavra para amenizar algo penoso, desagradável etc.
    Exemplo: Ele está no sono eterno. (Morto)
  • Gradação – Sequência de expressões ou palavras que intensificam uma única ideia.
    Exemplo: Maior, menor, mediano, não me importo com o tamanho.
  • Hipérbole – Exagero explícito de uma ideia.
    Exemplo: Já te dei um milhão de motivos.
  • Ironia – Ocorre quando as palavras e o sentido que elas querem expressar se contradizem. Normalmente isso acontece de forma depreciativa ou sarcástica.
    Exemplo: Que coisa linda vocês dois brigando!
  • Prosopopeia: Personificação, animação ou humanização de um objeto inanimado ou imaginário.
    Exemplo: A cama está me chamando.
  • Perífrase – Uso de termos que se relacionam a um objeto, situação ou local que não de tal forma que conseguem substituir o próprio nome daquilo a que se refere a sentença.
    Exemplo: Eu nasci no país do futebol (Brasil).

Figuras de Construção

São as figuras de linguagem ligadas à estrutura da frase, também conhecidas como figuras de criação. Se relacionam com a parte sintática da frase. Omissões, repetições e alterações nas ordens e concordâncias das frases são as características das figuras de linguagem deste tipo. A mudança da estrutura sintática que corresponde à norma culta é o resumo das figuras de sintaxe.

  • Assíndeto – Ocorre quando há uma sequência de termos separados por vírgulas, e inclusive os possíveis conectivos são substituídos por ela.
    Exemplo: Cheguei, pedi, paguei, bebi tudo o que pude.
  • Elipse – Omissão de um termo ou oração facilmente identificável.
    Exemplo: (Ele) Falou besteira, estava nervoso,(de) cabeça quente.
  • Zeugma – Omissão de um termo que seria repetido.
    Exemplo: Atravessei o oceano e o deserto também. (omissão de “atravessei”)
  • Anáfora – Repetição proposital de um termo ou expressão no início de uma frase ou verso.
    Exemplo: Fui à cidade grande. Fui a lugares jamais vistos.
  • Pleonasmo – Repetição de uma mesma ideia. Redundância.
    Exemplos: Subir para cima. Ver com os olhos.
  • Polissíndeto – Repetição proposital e enfática de conjunções.
    Exemplo – Olho e pé e mão e cabelo e unhas e dentes.
  • Anástrofe – Inversão simples de palavras vizinhas.
  • Exemplo: Desesperado estou, futuro não vejo. (Estou desesperado, não vejo futuro)

  • Hipérbato – Inversão completa de elementos da frase.
    Exemplo: Contra a correnteza, os salmões nadam. (Os salmões nadam contra a correnteza)
  • Sínquise – Inversão exagerada de elementos da frase.
    Exemplo: A ponte se estende pelo vale, de madeira.
  • Hipálage – Atribuição de um adjetivo relacionado a um objeto atribuído a outro em uma mesma frase.
    Exemplo: As espadas cansadas dos soldados. (na verdade, são os soldados que estão cansados)
  • Anacoluto – Interrupção da estrutura sintática de uma oração seguida de outra expressão complementar.
    Exemplo – Esta televisão, sempre que chego, está ligada.
  • Silepse – Concordância ideológica. As palavras concordam com suas ideias, e não com gênero e número expressos.
    Exemplo: São paulo é linda. (São paulo = A cidade de)